quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Uma piada de mau gosto

Em resposta a texto do colunista Nelson Ascher, o músico Arnaldo Antunes destaca a urgência da questão ambiental
ARNALDO ANTUNES ESPECIAL PARA A FOLHA
É DE derrubar o queixo o artigo de Nelson Ascher de 4 de fevereiro, nesta Ilustrada, em que declara que "o lobby mais poderoso e articulado é, sem dúvida, o dos verdes ou ecologistas", que estaria impondo ao mundo inúmeras restrições, baseado em "males imaginários". Tendo em conta as enormes dificuldades para conseguir reduzir minimamente os efeitos de uma situação planetária que vem se revelando muito mais alarmante do que até então todos supúnhamos, tal afirmação do colunista parece uma piada de mau gosto. A urgência em se tratar da questão ambiental vem sendo comprovada por inúmeras pesquisas científicas e evidências incontestáveis, a despeito das já reportadas pressões que o governo americano vem exercendo sobre seus cientistas para atenuarem, retardarem, alterarem ou excluírem suas conclusões sobre o meio ambiente dos relatórios oficiais. Nelson Ascher repete aqui a ladainha do "não é bem assim", que vem sendo usada com freqüência pelos representantes dos interesses das indústrias poluentes para tapar o sol com a peneira e não alterar suas condutas em relação ao meio ambiente. Faz isso desde o título de seu texto ("Quente ou frio?"), pondo em dúvida, não só o aquecimento global, como também a responsabilidade humana sobre ele. É claro que medidas ecológicas implicam diretamente reduções drásticas nos lucros imediatos de determinados grupos empresariais, diante dos quais as reivindicações dos ambientalistas (como reduções nas emissões de CO2, tratamento adequado do lixo, descontaminação das águas, restrição ao desmatamento das florestas) ainda engatinham, contra muita resistência e pouca consciência. Metáforas medonhasAo mesmo tempo, não é de espantar a postura de Nelson Ascher, para quem já vem acompanhando, em doses semanais, sua campanha a favor da desastrosa política externa da administração Bush e de seus métodos para combater o terrorismo internacional. Nos primeiros momentos da invasão norte-americana no Iraque, Ascher comemorou com entusiasmo a suposta vitória (com metáforas medonhas como as de bombas caindo como pizzas "delivery"), sem perceber o quanto não se tratava de um termo, e sim do início de um conflito armado que se estende até hoje, sem uma solução à vista. Dessa visada, seu artigo parece fazer sentido, pois serve bem ao que almeja a nova ordem americana (marcada pela intolerância nas relações exteriores, assim como pela recusa em aceitar as restrições internacionais para controle do aquecimento global), contra o que já chamou, em outros artigos, de "velha Europa". Ainda, para Nelson Ascher, os defensores do meio ambiente seriam responsáveis por uma série de "proibições" que, "poucas décadas atrás, teriam parecido ridículas": "baniram os bifes", "eliminaram os transgênicos", "proscreveram os vôos internacionais", "tornaram proibitivo o uso de automóveis", "plastificaram as genitálias alheias para limitar a produção de bebês", "criminalizaram a obesidade, o fumo etc.". Um mínimo de sensatez basta para duvidar da maioria dessas colocações. O culto à forma física e a proibição ao fumo têm origem mais ligada a questões de saúde pública e conservadorismo moral do que à defesa do meio ambiente. Por sua vez, o uso de preservativos -apesar de atualmente ter mais relação direta com a ameaça da Aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis do que com causas ecológicas, como o controle de natalidade- apresenta uma alternativa libertária e necessária, contra a qual o puritanismo das forças neoconservadoras (as mesmas que tentam substituir Darwin por Adão e Eva no ensino primário) investe com a defesa das relações monogâmicas e do sexo apenas com fins de procriação. Quanto às outras restrições, parecem ilusórias ante a constatação da realidade cotidiana. As ofertas para consumo de carne aumentaram em quantidade e variedade nas últimas décadas, e não parece preciso lembrar aqui que parte da floresta amazônica vem sendo devastada para se tornar pasto. Os preços das passagens para vôos internacionais caíram consideravelmente. As facilidades de compra parcelada de automóveis também aumentaram, ao ponto de o número de veículos nas ruas levar a uma situação indomável, da qual nenhuma espécie de rodízio parece dar conta. Enfim, por mais que nos queira fazer crer no contrário o colunista, o fato é que venceu a cultura do excesso, do desperdício e da irresponsabilidade em relação a um futuro que não seja imediato. É por isso que, a cada dia mais, temos que conviver com insanidades como, para ficar em pequenos exemplos, guardanapos de papel embrulhados um a um em embalagens plásticas, canudos de plástico revestidos um a um em embalagens de papel, sachês de material plástico embalando pequenas porções de mostarda, ketchup, azeite, maionese etc., que, numa estúpida assepsia (que há poucas décadas, sim, pareceria ridícula), vêm, gota a gota, degradando o planeta. Era BushE, é claro, esse estado de coisas combina bem com a conjunção de intransigências que marca a era Bush, apoiada principalmente pelos lobbies das indústrias petrolífera e armamentista, não só imensamente mais poderosas do que as que lutam pela preservação do meio ambiente, como também com interesses antagônicos a elas. Muito mais graves do que as "proibições" atribuídas por Ascher aos ecologistas são as restrições à liberdade individual levadas a cabo pelo governo americano em sua campanha antiterrorista -correspondências violadas, prisões sem mandados ou advogados, perseguições a pessoas que se oponham à guerra, cerceamento de manifestações de rua, restrições crescentes para concessões de vistos a imigrantes. Mas o que é mais inaceitável é a afirmação de que "a preocupação exacerbada com o clima e o meio ambiente, coisas cujo funcionamento se conhece pouco e mal, já resultaria em problemas imediatos, pois, para a parcela miserável da humanidade, dificulta cada vez mais a superação de seu estado", ante a evidência de que os mais desfavorecidos economicamente são também os que mais sofrem as conseqüências das contaminações tóxicas e dos desvios naturais decorrentes delas. Além disso, Ascher ignora os inúmeros projetos de inclusão social relacionados à coleta seletiva de lixo e reciclagem, por exemplo, entre outras iniciativas ecológicas. Quanto ao Protocolo de Kyoto (que os EUA não assinaram, apesar de serem os maiores contaminantes), cujas metas parecem hoje insuficientes diante dos mais recentes relatórios sobre a situação ambiental, o articulista afirma "sabermos que era praticamente inútil, que as nações mais vocalmente empenhadas em seu sucesso têm sido as que mais longe ficaram das metas propostas", como se uma lei devesse deixar de existir apenas pelo fato dela não estar sendo devidamente cumprida. Há pessoas que defendem esse estado de coisas dizendo: "poderia ser pior", como no caso da ordem mundial ser tomada pelo fundamentalismo islâmico, em que todos os considerados "infiéis" poderiam sofrer violência desmedida. Eu acho que deveríamos pensar: "poderia ser melhor", se os Estados Unidos e os países que os seguem assumissem seus compromissos com o controle de abusos ambientais; se houvesse maior liberdade de trânsito entre as fronteiras; se a intolerância desse lugar ao diálogo; se todos pensassem não só nos seus filhos e netos, mas também nos tataranetos dos seus tataranetos.
ARNALDO ANTUNES é poeta, compositor e cantor

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